camila casotti

“Ah, querida e esperada contração, seja mais uma vez bem-vinda!”

Relato de parto de Camila Casotti, paciente da dra Juliana Chalupe, médica Ginecologista e Obstetra do Grupo Nascer – Parto Humanizado em Curitiba

Pré Parto 

Na quinta-feira, dia 8 de novembro de 2018, dia do aniversário do meu tão querido avô Pedro, intuía de fazer uma ecografia. 

Lá fomos nós, cedinho, para ver o Miguel. Sua reserva de nutrientes estava baixa, não havia engordado desde a última semana e pela segunda vez havia baixado a curva de crescimento. Se eu quisesse parto deveria fazer um exame chamado Doppler para ver se Miguel teria condições de passar por tamanho exercício. 

Tinha 1 hora entre um exame e outro, estávamos próximo a uma igreja então eu e Gabriel fomos até lá. 

Fiz uma meditação lá dentro, a mesma que fazia quando havia o descolamento no início da gestação. Ela é especial…fui até o útero, até a placenta, ao cordão umbilical em todos os meios que fazem chegar os nutrientes para o Miguel, para regenerar tudo isso, se caso estivesse, por força da mente, “obstruído”. 

Encontrei a confiança e a paz que precisava e então fui para o exame do Doppler com essa sensação. Estava crente que a minha parte do que é possível fazer nesse momento foi feita e confiante que meu Ser pode fazer isso. 

O exame Doppler deu excelente! O oxigênio está chegando para ele. Começo a refletir…

Sim, nós criamos tudo, toda a nossa realidade. Mas em uma gestação existem duas realidades: a da mãe e a desse Ser que chega, que É e que traz! 

E aqui posso encarar, posso olhar e aceitar que, eu sempre soube. Eu sempre conheci o Miguel e sempre soube disso. Talvez eu estivesse tentando não olhar ou achar que fosse uma criação minha para tentar reverter aquilo que já era, que já estava e que já tinha, sabe?

Essa ecografia não precisava ter sido feita mas eu senti de agendar, intuía que era necessário olhar. Eu sabia, de alguma forma. E talvez toda a minha preparação para a vinda do Miguel foi para, de minha parte, torna la da melhor forma possível. 

Quando escolhi a médica também pensei que escolho porque acredito na sua coerência, uma intervenção só será colocada quando realmente for necessária. E ela disse: com esse Doppler conseguimos hoje possibilitar esse parto, mas amanhã pode ser que tenhamos somente a cesária como opção. 

Nós não sabemos. 

Eu poderia correr o risco, mas por já estar de 4cm de dilatação e com o colo super favorável…fizemos levemente ali na consulta um descolamento de membrana e eu iria para a casa ter um tempo para no final do dia voltar a maternidade e induzir o trabalho de parto caso não entrasse nele naturalmente. 

De repente preciso confiar que uma intervenção é necessária…?

Talvez eu tenha mais o que fazer, talvez eu possa, talvez eu consiga meios para desencadear o trabalho de parto naturalmente.

Mas estou bem aberta, tenho que estar agora com relação aos meios que me são colocados como intervenção.

Porém continuo esperançosa de que o que precisar desencadear em mim para liberar esse trabalho de parto para acontecer naturalmente, que eu consiga chegar lá, dar esse passo. Se precisar entregar alguma coisa. Há algo que eu possa fazer para isso ou agora é do Miguel também essa parte? 

Eu digo para ele: venha, eu vou estar contigo, você é capaz, você consegue! Essa reserva de nutrientes é exatamente o que você precisa para nascer, e você tem a sabedoria para fazer isso acontecer porque o seu corpo é sábio. Então é uma coisa conjunta, e não só minha. Eu não sinto as contrações ritmadas, eu não tenho isso.

Porém sinto algo, acontecendo, iniciando de uma forma muita tranquila. Estou indo para a Maternidade, sem contrações, para possivelmente induzir o parto do Miguel. Estou entregando tudo. Aceito o que a vida me enviar. Ela é maravilhosa e tudo vai dar certo. 

De repente me vi colocando a roupa que havia pensado para o parto e pegando a mala de maternidade.

De repente vi os dindos do Miguel na minha sala de estar, para ficar com a Carolina.

De repente me vi dizendo: filha, vamos buscar o Miguel.

Estava acontecendo…sem acontecer, sem perceber…sem saber.

No caminho apenas sabia, sem saber como, que aconteceria! Que entraria em trabalho de parto, sem indução.

Entreguei de novo. Deixa a vida me levar.

Parto 

Chegamos. Me vejo dando entrada da Maternidade, com 4cm de dilatação, sem contrações. O que me espera?

Vejo mais duas mulheres em trabalho de parto. Vejo a minha médica, Dra. Ju, sempre muito querida e atenciosa me orientando nos próximos passos. Vejo grande parte do Grupo Nascer colocando seus dons para nossas famílias, me sinto tão bem, tão feliz, amparada, segura! Que equipe! Estão aqui, fazendo um lindo trabalho, nessa linda Maternidade

De repente chega a minha amada doula, Cris. Que ser humano maravilhoso! “Pois é, Cris…estou aqui.”

Então ela me dá uma homeopatia. E a cada 20 minutos a repete. Nos olhamos..talvez nenhuma palavra mais precisasse ser dita. Agora, só sentir. 

E sentimos. E era visível, havia contração. 

De pouquinho ela ia chegando, de leve, sem ritmo. Feliz, no seu tempo. 

Eu pedia mais um tempinho, mais um tempinho, está vindo, e postergava a indução do parto. Miguel estava sendo monitorado o tempo inteiro por aparelhos que mediam sua freqüência e seus batimentos cardíacos. Ele estava bem. Estava vindo, no seu tempo.

Pedi para dar uma volta, andar um pouco. Então caminhava pelas rampas da maternidade conversando com ele, dizendo que poderia vir, que o pegaria em meus braços, lembrei da “walking meditation”, melhor aprendizado que tive enquanto estive no Plum Village, mosteiro budista no interior da França. 

Nas rampas da maternidade dava um passo, inspirava e dizia: Miguel, eu estou aqui. E expirava e dizia: Mãe Terra, nós estamos aqui. 

E a cada passo, íamos nos conectando a Ela, que nos possibilita a vida aqui. E a cada respiração me sentia mais leve e mais confiante que estávamos onde deveríamos estar. Estava tudo certo. 

Até sentir que esse trabalho estava pronto. E então, resolvi voltar à suíte de parto, para me colocar à disposição do que fosse necessário para a chegada dele. 

E ao chegar na porta sai a minha querida doula que me dá as gotinhas de homeopatia, e me diz: Camila, há uma possibilidade, você dormir aqui com o Miguel monitorado, e amanhã induzimos o parto as 6h da manhã. 

Como fiquei feliz em saber disso! Eu ganhei tempo

Ao entrar no quarto a melhor obstetra que a vida poderia me entregar continuou: “Miguel está bem, está monitorado. Nós podemos fazer isso.” Que linda essa mulher foi de permitir isso, com segurança. Quão grata sou, Dra. Ju, por você estar ali com a gente naquele momento e nos colocar, com tanto respeito, essa opção. Sou eternamente grata pela sua presença no nascimento dele, obrigada!

E confirmamos com a médica e doula a nossa escolha. E instantaneamente eu relaxei, suspirei, veio uma contração.

E a partir dessa contração, vieram várias. Estava apenas observando, sentindo as com tanta atenção e gratidão.

A Dra. Ju veio arrumar o aparelho para controle dos batimentos do Miguel e então ela olhou no relógio e disse: “olha, faz 10 minutos que estou aqui e essa é a quarta contração que eu vejo…Camila, você está em trabalho de parto! Ninguém vai mais para a casa, rs”

E dentro de mim eu explodia de felicidade: eu sei! 

Elas nos deixaram sozinhos por um tempo, para descansarmos e as construções evoluírem. Gabriel deitou em um colchonete no chão e eu fiquei na maca. Ali, em silêncio, apenas sentia meu corpo. Cada contração era muito bem-vinda e acolhida. Acompanhava cada uma, chegando suave, fazendo seu pico e indo embora. Quando vinha uma mais forte ficava toda orgulhosa: essa foi demais! 

Me assistia entrar em trabalho de parto e estava profundamente feliz! Estava plena, realizada, encantada! Estava silenciosa.

Alguém bate à porta. Abro meus olhos, Cris coloca a cabeça para dentro do quarto e diz: 

“Camila, seus pais estão aqui.” Deixem entrar.

Para mim ter os dois ali do meu lado me trouxe casa, base, me fez feliz.

As contrações pegaram ritmo, e estavam se tornando cada vez mais intensa. Meu pai ficava de olho no aparelho e dizia: essa foi bem forte! Rs 

E eu consentia: sim, essa foi bonita! 

Então me reposicionei na maca, sorrindo! 

Estou em trabalho de parto, com contração e  feliz da vida! A dor é bem vinda, quem diria, ela é querida por mim. Logo a contração me colocava em uma nova posição, e me mostrava, que já estava entrando no momento de me reservar, me recolher, viajar para dentro, para trazer um Ser para fora. 

15 dias antes do parto, em uma madrugada, me questionei: Será que sou capaz de criar um parto sem dor? E imediatamente tinha a resposta: Podemos criar o que quisermos em vida. Sim, eu sei. Mas será, que eu Camila, posso?

Voltei para a cama e pensei comigo que deveria tentar. Passei a meditar todas as tardes a partir daquela madrugada e após a meditação, mentalizava o parto, como desejava. Imaginava a contração chegando e fazia ali, o que gostaria de fazer no trabalho de parto.

Idealizava a contração, inspirava, vocalizava, sentia o pico, me entregava, sentia ela ir embora. E assim repetia algumas vezes, mentalizando esse momento, com muita calma e consciência. 

No trabalho de parto do Miguel, isso era automático. Cada contração era muito bem-vinda, respirava e vocalizava, sentia ela vir e ir, feliz…com sensação e sem dor.

Que delícia era viver cada momento, ter consciência de cada fase, experimentar o criado anteriormente, experimentar o possível: um parto sem dor, gostoso e tranquilo!

Entre uma contração e outra, sentia que cochilava, era tão rápido, mas profundamente relaxante. 

E então, lá de longe, sentia ela chegar: “Ah, querida e esperada contração, seja mais uma vez bem-vinda!” 

Pegava nas mãos do Gabriel e o puxava, sentia as massagens do céu pelas mãos da Cris e inspirava, vocalizava, sentia a tão querida e esperada contração. Meu corpo era puramente entrega e minha mente puramente silêncio. Estava em paz.

Sinto de ser forte, chegou o momento da expulsão, será que consigo? Me questionei. 

Na entrega o questionamento perde espaço, o corpo toma frente, ele é perfeito, sábio e pode tudo. É feito para parir. Apenas deixo ele fazer o que fisiologicamente está programado para:

trazer um Ser a Terra.

Ela chega mais um vez, vocalizo, ela se vai. 

E sinto dentro de mim um grande impulso:

Miguel, vou te pegar no colo, pode vir!

Ela chega novamente, vocalizo com grande força, sinto a sua cabeça, sinto escorregar seu corpo, estou com ele em minhas mãos, coloco em meus braços:

Oi lindo!

Oi lindooooo!

Não falei que te pegaria?

Foto: Mariana Alves
Foto: Mariana Alves
Foto: Mariana Alves
Foto: Mariana Alves

*Texto e fotos enviados e autorizados pela paciente Camila Casotti.

Grupo Nascer

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